LAVANDO ROUPA SUJA

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*Necessário*

terça-feira, 16 de junho de 2009

METRÔ DE BABEL



Muitos já devem ter ouvido falar da história bíblica da Torre de Babel. Os homens se uniram para construir uma torre que chegasse até o céu, mas houve confusão entre a língua dos homens e ninguém mais se entendia. E uma grande confusão ocorreu em razão disso.
Então ... Horário do rush, 18h. Estava no metrô vindo do centro do Rio de Janeiro. Aqueles que têm o hábito de andar nesse tipo de transporte sabem que, apesar de ser mais rápido, é também muitíssimo apertado. Sempre tem sete pessoas onde cabe uma. Nessas condições extremas de aperto, chega a uma determinada estação onde várias pessoas empurram umas as outras para conseguirem entrar. Dentre elas uns jovens alvoroçados, alguns sem camisa, falando alto e cantando. E nesse empurra–empurra, um deles esbarra em uma senhora, bem vestida com um penteado armado, e acaba derrubando os óculos dela. Esse jovem se abaixa e o pega para a senhora, pede desculpas pelo ocorrido e em seguida exorta os demais companheiros, “ Vamo ter mais cuidado aê! Vocês derrubaram o óculos da coroa!”
Prontamente a mulher extremamente ofendida rebate, “coroa é a sua mãe!”. O jovem pareceu meio desnorteado com a resposta dela, visto que ele tentara defendê-la, “Coé, tia, que que foi? Só falei pra eles pararem de empurrar...Tia..” E o corte veio rápido, “Eu não sou sua tia, e me respeite!”. O rapaz ficou indignado pela forma como foi tratado após ter sido gentil, a sua maneira, com a senhora, “Tá vendo, a gente tenta ajudar, e é assim... não estou nem ai... pode empurrar pessoal. Quero mais é que caia”.
Daí pra frente foi uma grande troca de gentilezas entre eles. A mulher se exaltou o jovem também. O povo se meteu na confusão, uns tomaram o partido dele, outros dela. E foi assim a viagem inteira. Dentro do metrô super lotado.
Não entro no mérito de quem estava certo ou errado. O que destaco nessa história, que eu presenciei, foi o motivo da discussão. Os personagens dessa situação eram, aparentemente, de realidades sociais completamente diferentes, e existe muito mais do que uma fossa social entre um e outro. Não se trata apenas de um ter dinheiro e o outro não ter. É como se fossem tribos diferentes habitantes de um mesmo território e que não falam mesmo idioma, cada um tem o seu dialeto.
Quando o rapaz chama a senhora de “coroa”, creio que, muito possivelmente, ele não imaginasse que, para ela, isso seria uma ofensa. Até porque dentro do contexto em que foi dito, não parecia ter nenhuma carga ofensiva, muito pelo contrário.
Não quero também entrar no mérito de como é a forma correta de se falar, e nos conceitos morais oriundos disso. O que quero apontar é que não existe uma ponte de comunicação entre as classes. Se houver, está bem capenga. As senhoras bem vestidas não entendem o que os jovens sem camisa falam e vice-versa.
E isso cria muito mais do que uma discussão no metrô lotado. Cria uma situação de conflito entre as classes que cada vez mais ficam distantes uma da outra. Nós sabemos muito bem o que ocorre quando povos de culturas diferentes, de línguas diferentes, com propósitos diferentes, passam a coabitar. Guerras começam assim, e já existe uma instalada entre nós.
De forma nenhuma sugiro a segregação social. Sugiro a comunicação. Buscar compreender o outro já um começo para acabarmos com essa torre de babel, onde ninguém se entende.

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