LAVANDO ROUPA SUJA

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*Necessário*

terça-feira, 18 de novembro de 2008

CONSTRUÇÃO DE UMA (A MINHA) CONSCIÊNCIA NEGRA



Dia 20 de novembro, feriado, dia de Zumbi dos Palmares. Um feriado negro. Sempre quando se aproxima essa data, fala-se da consciência negra. E durante muito tempo eu fiquei, digamos que perdido, sem me localizar enquanto um sujeito negro.
Quando eu era mais novo vivia em competição com outras pessoas não negras, se fulano lia um livro eu teria que ler 2 livros. Por que sempre me disseram que por ser negro teria que ler mais, saber mais, ser o melhor da turma. Como isso raramente acontecia, como minhas notas não eram as melhores, imaginei que estaria fadado ao fracasso. Por que um negro no TINHA que ser muito bom para poder competir com os não negros para compensar o fato de ser o que é - Não estou entrando no mérito da questão se isso realmente é fato ou não, mas estou abordando os fatos tal como eles foram apresentados a mim – Sendo assim, cria-se um complexo de inferioridade.
Quando percebia que a maioria dos que vivem em favelas ou outros lugares de abandono social eram negras imaginava que o problema estava em ser negro. E que os não negros não passariam por isso. Até eu entender que esse fenômeno existe em decorrência de um passado histórico não muito distante, demorou muito tempo. Até mesmo por que quando se está nos primeiros anos da escola, quando se estuda história, pelo menos eu não me sentia confortável em ver as ilustrações nos livros de brancos chacoteando os escravos, e as “brincadeiras” dos coleguinhas de turma em razão disso. De alguma forma isso cria uma certa revolta silenciosa, uma vergonha enrustida de ser o que é, de ser sempre o dominado.
Com o passar dos anos, essa revolta, vergonha e toda ideologia do oprimido foram se diluindo. Daí comecei a me entender como um sujeito negro e que isso não me tornava melhor, nem pior, era apenas diferente. Acontece que todo diferente procura seus iguais para assim formarem uma comunidade. Passei me interar sobre grupos afro, militantes pela causa negra, etc. Só que me deparei com um problema. Eu não me identificava com nenhum dos grupos que freqüentei. Por exemplo: em um desses grupos, todos eram adeptos de religiões afro-descendentes. Eu não. Eu sou católico praticante. Dessa forma, dentro daquele grupo, onde todos eram negros, não me sentia negro suficiente. Fui fazer capoeira, por ser uma luta afro, para tentar ser “mais negro”. Porém sempre foi um péssimo jogador de capoeira. Mais uma vez, estava em crise. Não era branco, tão pouco “negro suficiente” Onde eu me encaixaria?

Passaram-se mais anos, lendo sobre, vendo a realidade tal como ela é. A vergonha e a ideologia do oprimido sumiram. E passei a perceber que eu não era nem, melhor, nem pior, nem tão pouco diferente, enquanto essência. Não sinto mais a necessidade de auto-afirmação. Sei o que sou e respeito isso. Sei que estamos longe do fim do preconceito racial, mas estamos bem mais perto do que estávamos. E percebi que antes de lutar para que os outros me vejam como igual preciso me ver como igual. Antes de lutar por respeito, tenho que me respeitar. Antes lutar para que entendam, preciso entender a minha história, e dessa forma entender meu papel hoje. Como falei acima a vergonha morreu. Mas agora existe a revolta. Mas digo revolta para ilustrar uma inconformidade para com a situação. Deve-se batalhar para o fim do preconceito em todas as instancias? CLARO! Mas não são as leis que mudam o homem. Elas podem mudar seus atos e hábitos, mas não o homem. Por que as mudanças devem vir de dentro. Logo, o racismo acabará quando deixarmos de ser homens negros, brancos, etc. e passarmos a ser HOMENS.